Data: Abril 21, 2017 | 4:32
DIA DA REPÚBLICA | O povo do Brasil celebra hoje 21 de abril o primeiro levante republicano estourado em Minas Gerais no final do século XVIII, acontecendo ao mesmo tempo dos quilombos afro-brasileiros e da insurreição katarista no Alto Peru. As coroas de Portugal e Espanha usavam os mesmos métodos para aplacar aos libertários: a traição infiltrada e o terror dos esquartejamentos...

A morte comum de Tiradentes no Brasil e de Tupac Katari nos Andes

Tiradentes é considerado atualmente Patrono Cívico do Brasil, sendo a data de sua morte, 21 de abril, feriado nacional. Seu nome consta no Livro de Aço do Panteão da Pátria e da Liberdade, sendo considerado Herói Nacional. | Foto Archivo

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Com sua cruel morte executado e esquartejado no 21 de abril de 1792, com os seus restos desmaculados, a coroa portuguesa tratou de transformar aquela numa demonstração de força. fazendo verdadeira encenação. A leitura da sentença estendeu-se por dezoito horas, após a qual houve discursos de aclamação à rainha, e o cortejo munido de verdadeira fanfarra e composta por toda a tropa local. Bóris Fausto aponta essa como uma das possíveis causas para a preservação da memória de Tiradentes, argumentando que todo esse espetáculo acabou por despertar a ira da população que presenciou o evento, quando a intenção era, ao contrário, intimidar a população para que não houvesse novas revoltas.

© Wilson F. García Mérida | Redação Sol de Pando em Brasília

O 21 de abril de 1792 a República do Brasil comemora o dia que este país pagou com sangue e sacrifício humano seu desejo de ser uma república independente da corona colonial portuguesa.

Nesse dia foi executado o primeiro republicano brasileiro que levantou se em armas para libertar sua pátria do jugo português: Joaquim José da Silva Xavier, mais lembrado como Tiradentes. 

Dentista, militar, minerador, comerciante e ativista político que atuou no Brasil, mais especificamente nas capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro, Tiradentes é o herói nacional brasileiro reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira, primeiro intento serio da independência do Reino do Portugal baixo os princípios republicanos que chegaram com as ondas da Revolução Francesa e a Independência Norteamericana.

E o Patrono Cívico do Brasil, patrono também das Polícias Militares e Polícias Civis dos Estados.

Na sua memoria, o dia de sua morte é Feriado Nacional.

Tiradentes e Tupac katari, contemporâneos duma morte comum

Em 1871 Tupac Katari levantou um exército de 40 mil indígenas aimaras, homens e mulheres (elas lideradas pela esposa de Katari, Bartolina Sisa), e estabeleceu um cerco à cidade de La Paz onde moravam os colonizadores espanholes. O levante só foi derrotado após uma batalha contra as tropas coloniais que chegaram até La Paz de Lima, no Peru, e de Buenos Aires, na Argentina. Tupac Katari foi torturado e barbaramente executado. Sua morte ocorreu após os colonizadores amarrarem seus braços e pernas por cordas em cavalos, que correram em quatro direções até arrancar seus membros. Seu cabeça decapitada e seu corpo esquartejado foram expostos e espalhados ao redor das aldeias nas quais Tupak Katari havia reclutado combatentes. O mesmo que fizeram os portugueses com Tiradentes.

Ao ser desbaratada a Inconfidência Mineira devida á traição de alguns crioulos que apojaram a revolta, Tiradentes entregou se as autoridades da Corona assumindo ele sozinho a responsabilidade militar do feito para salvar a vida dos seus correligionários, sendo condenado á morte.

E assim, numa manhã de sábado, 21 de abril de 1792, Tiradentes percorreu em procissão as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro, no trajeto entre a cadeia pública e onde fora armado o patíbulo. Executado e esquartejado, com seu sangue se lavrou a certidão de que estava cumprida a sentença, tendo sido declarados infames a sua memória e os seus descendentes. Sua cabeça foi erguida em um poste em Vila Rica, tendo sido rapidamente cooptada e nunca mais localizada; os demais restos mortais foram distribuídos ao longo do Caminho Novo: Santana de Cebolas (atual Inconfidência, distrito de Paraíba do Sul), Varginha do Lourenço, Barbacena e Queluz (antiga Carijós, atual Conselheiro Lafaiete), lugares onde fizera seus discursos revolucionários. Arrasaram a casa em que morava, jogando-se sal ao terreno para que nada lá germinasse.

Onze anos antes, no Alto Perú (hoje Bolívia), um herói índio contemporâneo Tiradentes, Julián Apaza Tupac Katari, também foi traído, delatado e condenado morrer esquartejado. Em 1871 Tupac Katari levantou um exército de 40 mil indígenas aimaras, homens e mulheres (elas lideradas pela esposa de Katari, Bartolina Sisa), e estabeleceu um cerco à cidade de La Paz onde moravam os colonizadores espanholes.  O levante só foi derrotado após uma batalha contra as tropas coloniais que chegaram até La Paz de Lima, no Peru, e de Buenos Aires, na Argentina. Tupac Katari foi torturado e barbaramente executado. Sua morte ocorreu após os colonizadores amarrarem seus braços e pernas por cordas em cavalos, que correram em quatro direções até arrancar seus membros. Seu cabeça decapitada e seu corpo esquartejado foram expostos e espalhados ao redor das aldeias nas quais Tupak Katari havia reclutado combatentes. O mesmo que fizeram os portugueses com Tiradentes.

Tereza de Benguela ou o sacrifício duma reina quilombola

Tereza morreu no ano 1770 abarricada no quilombo de Quariterê; um exercito escravista comandado por Luiz Pinto de Souza havia atacado a comuna de Tereza, matando 79 negros e 30 índios da etnia Xavante. Ela foi capturada e aos poucos dias sua cabeça decapitada foi exibida na praza do quilombo mesmo “em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”, segundo narra o registro colonial nos anais de Vila Bela, sem especificar o dia exato nem a causa de sua morte. | Foto Sejdu

Precursora de Tiradentes e Tupac Katari, foi uma heroína negra que apareceu algumas décadas antes de 1770, dentro a espessura do bosque amazônico banhado por o rio Guaporé, ao outro lado do Itenez, na atual Bolívia, perto a Cuiabá, Mato Grosso.
Ela foi Tereza de Benguela, esposa de José Piolho, chefe do quilombo de Quariterê perto Vila Bela da Santíssima Trinidade, a cuja morte Tereza fiu erigida reina dos escravos libertários, assumindo o mando do quilombo (nome que tem as comunas organizadas dos negros insurgentes) e mantendo um sistema de defensa como armas arrebatadas a os escravistas brancos, Nessa autonomia politica e econômica, democraticamente muito avançada para seu tempo,  o quilombo de Quariterê consolidou uma agricultura para a colheita do algodão e fabricação de têxteis que, junto aos excedentes da produção agrícola abundante em milho, banana, feijão e mandioca, comercializava se no tudo o Pantanal, sob o vale do Guaporé.
A escrava libertaria morreu no ano 1770 abarricada no quilombo de Quariterê; um exercito escravista comandado por Luiz Pinto de Souza havia atacado a comuna de Tereza, matando 79 negros e 30 índios da etnia Xavante. Ela foi capturada e aos poucos dias sua cabeça decapitada foi exibida na praza do quilombo mesmo “em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem”, segundo narra o registro colonial nos anais de Vila Bela, sem especificar o dia exato nem a causa de sua morte.

Tiradentes e sua Inconfidência Mineira

O movimento ganhou reforço ideológico com a independência das colônias estadunidenses e a formação dos Estados Unidos. Ressalta-se que, à época, oito de cada dez alunos brasileiros em Coimbra eram oriundos das Minas Gerais, o que permitiu à elite regional acesso aos ideais liberais que circulavam na Europa.

Joaquim José da Silva Xavier  nasceu na Fazenda do Pombal, próximo ao arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, à época território disputado entre as vilas de São João del-Rei e São José del-Rei, na Capitania de Minas Gerais. Em 1755, após a morte de sua mãe, segue junto a seu pai e irmãos para a sede da Vila de São José; dois anos depois, já com onze anos, morre seu pai. Com a morte prematura dos pais, logo sua família perde as propriedades por dívidas. Não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de seu tio e padrinho Sebastião Ferreira Leitão, que era cirurgião dentista. Tabalhou como mascate e minerador, tornou-se sócio de uma botica de assistência à pobreza na ponte do Rosário, em Vila Rica, e se dedicou também às práticas farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido (alcunha) de Tiradentes. Segundo frei Raimundo de Penaforte, Tiradentes “ornava a boca de novos dentes, feitos por ele mesmo, que pareciam naturais”.

Em 1780, alistou-se na tropa da Capitania de Minas Gerais; em 1781 foi nomeado comandante do destacamento dos Dragões na patrulha do “Caminho Novo”, estrada que servia como rota de escoamento da produção mineradora da capitania mineira ao porto Rio de Janeiro na Serra da Mantiqueira. Sua atuação levou à prisão de um famoso grupo de salteadores liderados pelo temido Montanha. Foi a partir desse período que Tiradentes começou a se aproximar de grupos que criticavam o domínio português sobre as capitanias por onde circulava. Insatisfeito por não conseguir promoção na carreira militar, tendo alcançando apenas o posto de alferes, patente inicial do oficialato à época, e por ter perdido a função de marechal da patrulha do Caminho Novo, pediu licença da cavalaria real em 1787. Nessa época os altos cargos militares só foram accessível para os nascidos na Europa.

A gestação da revolta

Após a licença da cavalaria, Tiradentes morou por volta de um ano na cidade carioca, período em que idealizou projetos de vulto, como a canalização dos rios Andaraí e Maracanã para a melhoria do abastecimento de água no Rio de Janeiro; porém, não obteve aprovação para a execução das obras. Esse desprezo fez com que aumentasse sua indignação perante o domínio português. De volta às Minas Gerais, começou a pregar em Vila Rica e arredores, a favor da independência daquela capitania. Fez parte de um movimento aliado a integrantes do clero e da elite mineira, como Cláudio Manuel da Costa, antigo secretário de governo, Tomás Antônio Gonzaga, ex-ouvidor da comarca, e Inácio José de Alvarenga Peixoto, minerador e grande proprietário de terras na Comarca do Rio das Mortes. O movimento ganhou reforço ideológico com a independência das colônias estadunidenses e a formação dos Estados Unidos. Ressalta-se que, à época, oito de cada dez alunos brasileiros em Coimbra eram oriundos das Minas Gerais, o que permitiu à elite regional acesso aos ideais liberais que circulavam na Europa.

Além das influências externas, fatores mundiais e religiosos contribuíram também para a articulação da conspiração na Capitania de Minas Gerais. Com a constante queda na receita institucional, devido ao declínio da atividade mineradora, a Coroa resolveu, em 1789, a aplicar o mecanismo da Derrama, para garantir que as receitas oriundas do Quinto, imposto português que reservava um quinto (1/5) de todo minério extraído no Reino de Portugal e seus domínios. A partir da nomeação de Luís da Cunha Meneses como governador da capitania, em 1783, ocorreu a marginalização de parte da elite local em detrimento de seu grupo de amigos. O sentimento de revolta atingiu o máximo com a decretação da derrama, uma medida administrativa que permitia a cobrança forçada de impostos, mesmo que preciso fosse prender o cobrado, a ser executada pelo novo governador da Capitania, Luís Antônio Furtado de Mendonça, 6.º Visconde de Barbacena (futuro Conde de Barbacena), o que afetou especialmente as elites mineiras. Isso se fez necessário para se saldar a dívida mineira acumulada, desde 1762, do quinto, que à altura somava 768 arrobas de ouro em impostos atrasados.

Antes que a conspiração se transformasse em revolução, em 15 de março de 1789 foi delatada aos portugueses por Joaquim Silvério dos Reis, coronel, Basílio de Brito Malheiro do Lago, tenente-coronel, e Inácio Correia de Pamplona, luso-açoriano, em troca do perdão de suas dívidas com a Real Fazenda.

A traição

O movimento se iniciaria na noite da insurreição: os líderes da sedição sairiam às ruas de Vila Maria dando vivas à República, com o que ganhariam a imediata adesão da população. Porém, antes que a conspiração se transformasse em revolução, em 15 de março de 1789 foi delatada aos portugueses por Joaquim Silvério dos Reis, coronel, Basílio de Brito Malheiro do Lago, tenente-coronel, e Inácio Correia de Pamplona, luso-açoriano, em troca do perdão de suas dívidas com a Real Fazenda. Anos depois, por ordem do novo oficial de milícia Ernesto Gonçalves, planejou o assassinato de Joaquim Silvério dos Reis. Entrementes, em 14 de março, o Visconde de Barbacena já havia suspendido a derrama, o que esvaziara por completo o movimento. Ao tomar conhecimento da conspiração, Barbacena enviou Silvério dos Reis ao Rio para apresentar-se ao vice-rei, que imediatamente abriu uma investigação, no dia 7 de maio. Avisado, o alferes Tiradentes, que estava em viagem licenciada ao Rio de Janeiro escondeu-se no sótão da casa de Domingo Fernandes da Cruz, amigo da tia de Alvarenga Peixoto, dona Inácia. Desejando saber “em que termos vão as coisas”, pediu ao padre Inácio de Lima, sobrinho de dona Inácia, para que procurasse por Silvério dos Reis: “amigo”. No dia 9 de maio, Silvério dos Reis contou ao vice-rei que sabia quem conhecia o paradeiro de Tiradentes. No dia seguinte, o Padre Inácio foi apresentado ao Palácio e ameaçado para entregar a localidade do alferes.

Tiradentes teve a casa cercada ainda no dia 10 por soldados originais da cidade de Estremoz. Escondeu-se atrás das cortinas da cama, segurando um bacamarte carregado, cedido por Matias Sanches Brandão, e mantendo duas pistolas por perto, cedidas por Francisco Xavier Machado. Quando os soldados invadiram o quarto, Tiradentes entregou-se. Talvez ainda houvesse chance para a revolução, mesmo sem ele.

Julgamento, sentença e morte encenada

Negando a princípio sua participação, Tiradentes foi o único a, posteriormente, assumir toda a responsabilidade pela “inconfidência” inocentando seus companheiros. Presos, todos os inconfidentes aguardaram durante três anos pela finalização do processo. Alguns foram condenados à morte e outros ao degredo; algumas horas depois, por carta de clemência de D. Maria I, todas as sentenças foram alteradas para degredo, à exceção apenas para Tiradentes, que continuou condenado à pena capital, porém não por morte cruel como previam as Ordenações do Reino: Tiradentes foi enforcado.

Em parte por ter sido o único a assumir a responsabilidade, e em parte, provavelmente, por ser o inconfidente de posição social mais baixa, haja vista que todos os outros ou eram mais ricos, ou detinham patente militar superior. Por esse mesmo motivo é que se cogita que Tiradentes seria um dos poucos inconfidentes que não era tido como maçom.

Com sua cruel morte executado e esquartejado no 21 de abril de 1792, com os seus restos desmaculados, o governo geral tratou de transformar aquela numa demonstração de força da coroa portuguesa, fazendo verdadeira encenação. A leitura da sentença estendeu-se por dezoito horas, após a qual houve discursos de aclamação à rainha, e o cortejo munido de verdadeira fanfarra e composta por toda a tropa local. Bóris Fausto aponta essa como uma das possíveis causas para a preservação da memória de Tiradentes, argumentando que todo esse espetáculo acabou por despertar a ira da população que presenciou o evento, quando a intenção era, ao contrário, intimidar a população para que não houvesse novas revoltas.

Um ícone messiânico da República

Segundo um jornalista, relatos da época declaravam que Tiradentes era “um homem alto, grisalho, a barba benfeita, bigodes bem-aparado”, e o barbudo semelhante a Cristo só surgiu no século XX.

Tiradentes permaneceu, após a Independência do Brasil, relativamente obscuro, pois o país continuou sendo uma monarquia regida pela Casa de Bragança, e os dois monarcas, Pedro I e Pedro II, eram descendentes de D. Maria I, contra a qual Tiradentes conspirara e que havia assinado sua sentença de morte. Além disso, Tiradentes era republicano.

Foi a República —ou, mais precisamente, os ideólogos positivistas que presidiram sua fundação— que buscaram na figura de Tiradentes uma personificação da identidade republicana do Brasil, mitificando a sua biografia. Daí a sua iconografia tradicional, de barba e camisolão, à beira do cadafalso, vagamente assemelhada a Jesus Cristo e, obviamente, desprovida de verossimilhança. Como militar, o máximo que Tiradentes poder-se-ia permitir era um discreto bigode. Na prisão, onde passou os últimos três anos de sua vida, os detentos eram obrigados a raspar barba e cabelo a fim de evitar piolhos. Segundo o jornalista Pedro Doria, relatos da época declaravam que Tiradentes era “um homem alto, grisalho, a barba benfeita, bigodes bem-aparado”, e o barbudo semelhante a Cristo só surgiu no século XX.

Uma classe de Historia, falando acerca de Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes | VIDEO

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