NASCE NO PÓLO SUL | À medida que sobe, o "Surazo" torna-se mais "Friagem". Uma brisa suave e gelada toma o lugar do vento inclemente e é quando os corpos saturados pelo sol diário à queima-roupa são aliviados com uma gratidão ritual...

O INTENSO CALOR HUMANO DA FRIAGEM EM RIO BRANCO

Para abrigarse en la gran ciudad, la gente saca del ropero gruesas chompas de lana que llegan del Perú, chamarras y camperas, gorros y guantes que harán resistir la brisa helada del Friaje con alegre calidez. Y los más abrigados son los ninhos... | Foto Sol de Pando

Para se abrigar na grata cidade, a gente pega do armário grosas suéter de lã que chegam do Peru. Casacos e jaquetas, bonés e luvas vão fazer resistir a brisa gelada da Friagem com alegre calor. E os mais abrigados, são as crianças… | Foto Sol de Pando

© Texto e fotos: Wilson García Mérida | Redação Sol de Pando em Rio Branco

© Matéria publicada originalmente em espanhol, em 20 de junho de 2016

A queda drástica da sensação térmica não altera a rotina laboriosa em Rio Branco. Uma manhã gelada no Terminal Rodoviário da capital. | Foto Sol de Pando

Ao começar junho, os curió pararam de cantar com seus trinados matutinos se abrigando nos seus ninhos; foi o anúncio de que a Friagem estava pronto pra chegar. Entre as maravilhas naturais do território amazônico, é o mais surpreendente. Faz Rio Branco parecer com Oruro, Manaus com La Paz ou Porto Velho com Potosi, cidades do altiplano andino da Bolívia. Uma corrente gelada sobe do Pólo Sul, acumulando-se como uma gigantesca nuvem negra que vai se grudar como um poderoso imã sobre a grande floresta amazônica.

A temperatura irá oscilar entre 21 e 12 graus centígrados, com umidade absoluta.

No seu caminho até o norte da América do Sul, esta corrente que surge nas geleiras antárticas adquire diferentes formas e denominações. É o “Surazo” na Bolívia, onde se apresenta como um temporal tempestuoso e chuvoso em Santa Cruz, Beni, o Chapare em Cochabamba e os Yungas de La Paz. À medida que sobe, o “Surazo” —chegando até Pando e cruzando a fronteira pelo Acre e Rondônia—, torna-se mais “Friagem”, é menos chuvoso; uma brisa suave e gelada toma o lugar do vento inclemente e é quando os corpos saturados pelo quente sol à queima-roupa, aliviam-se com uma gratidão ritual.

Nos povoados indígenas ribeirinhos de Rio Branco, nas comunidades vizinhas nos municípios de Quenarí, Sena Madureira, Feijó, Taracuá e Cruzeiro do Sul, além Capixaba, Xapurí, Brasiléia e Epitaciolandia —mais perto Pando—, a gente armazenam nos payoles todas as frutas cítricas e vitaminas concentrados no copuazú ou na sinini, com muito mel, para proteger as crianças de afecções respiratórias iminentes.

E como esses passarinhos chamados de curió, que abrigam-se em seus ninhos sob os ramos do castanhal, os povos em isolamento voluntário —sem renunciar a sua nudez ancestral— reforçaram os telhados das suas palhoças com as folhas das arvores de banana, o qual é a melhor coberta para a ocasião.

Mas para se abrigar na bela cidade, capital do Estado do Acre, as pessoas tiram do armário grossos suéteres de lã que vêm do Peru. Casacos e jaquetas, bonés e luvas vão fazer resistir a brisa gelada da Friagem com alegre calor. E os mais abrigados, são as crianças.

O tempo é outro na paisagem amazônica

Un día de Friaje a las siete de la manhana en Rio Branco, junto a obreros de la construcción. | Foto Sol de Pando

Um dia de Friagem às sete da manhã em Rio Branco, ao lado de trabalhadores duma construção perto ao Mercado Velho. | Foto Sol de Pando

Com a Friagem às costas, a paisagem foi radicalmente transformada em Rio Branco. É uma cidade escura desde o dia começa e termina. E então o tempo parece ter parado, ele congelou. O tempo.

Geralmente o tempo transcorre aqui em outra dimensão. É outro tempo. O dia termina às cinco horas da tarde, momento no qual a noite começa cair de repente, como se alguém tivesse apagado a luz sem perguntar ninguém.

E o mesmo dia começa antes do amanhecer, na hora boliviana. 

Os vidros das janelas, os pára-brisas e os capôs dos carros, as calçadas e as paredes exsudam gotículas de água, como se tivesse chovido a noite toda mas não choveu, é a garúa: o orvalho que gruda ao cimento, é o que que resta da floresta na grande cidade cheia de pulmões verdes em torno dela, abraçada pelo grandioso rio Acre.

O matiz da Friagem consiste em que o sol fica ausente e os curiós mantêm um silêncio prudente baixo o abrigo de seus ninhos.

Robsen Outra, la Estatua Viva de Rio Branco, brinda su calor humano en los días del "Friagem". | Foto Sol de Pando

Robson Outra, a Estátua Viva do Rio Branco, proporciona seu calor humano nos dias da “Friagem”. | Foto Sol de Pando

Quando o sol voltar

A imensa neblina que veio do Pólo Sul domina o panorama na principal cidade do Acre. Os carros e motos passam pelas avenidas limpas e arrumadas, com as lanternas acesas durante todo o dia, abrindo caminho através da fria escuridão.

Mas o cotidiano segue seu ritmo habitual.

O eficiente mecanismo administrativo do Estado do Acre e da Prefeitura Municipal – ao abrigo dos seus funcionários públicos, decorosamente humildes e sempre prestativos— mantém o dinamismo de uma metrópole pacífica e acolhedora. A classe trabalhadora, a maioria da população, faz do clima gelado da Amazônia uma razão para uma laboriosa celebração .

E a previsão meteorológica sendo cumprida, depois de duas semanas, a nuvem polar se dilui entre o orvalho da garúa e acontece que o sol não estava ausente, mas apenas em um retiro tático necessário para que os curiós cantores tirassem umas curtas férias.

De pronto, una mañana cualquiera,  el azul del cielo vuelve a resplandecer límpido y abrasador. Entonces las calles de Rio Branco volverán a semivestirse de soleras y bermudas los hombres, sutiãs y bermudinhas las mujeres, hasta la próxima emanación polar. Y así el ciclo de la vida sigue dando vueltas a orillas del río Acre.

De repente, uma manhã qualquer, o azul do céu volta a brilhar límpido e abrasador. Então as ruas de Rio Branco vam se vestir  de soleras e bermudas os homens, sutiãs e bermudinhas as mulheres, até a próxima emanação polar. E assim como o ciclo da vida vai girando nas beiras do rio Acre.

É por tudo isso que nossa Amazônia é uma das maiores maravilhas do mundo.

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